Eu já sofri abusos. Abuso
psicológico, sexual, já tomei um tapa na cara porque bati a porta do carro forte
demais. Nas vezes em que não duvidaram de mim deram razão a pessoa que me
agrediu, porque, afinal, “eu tinha provocado ela”.
Abusadores
não são abusadores o tempo todo. São pessoas comuns que vez ou outra abusam de
alguém e não são burros para fazer isso em plena luz do dia, na frente de uma
plateia. Normalmente são agressivos e manipuladores, mas na maioria do tempo escondem
a verdadeira face e mostram para o mundo um charme carregado de promessas.
Vi muita
gente duvidar das mulheres que, supostamente, o João de Deus abusou. Elas
justificavam a descrença nas vítimas usando experiências pessoais na casa Dom Inácio de Loyola, dizendo que lá encontraram paz, cura e amor. O que elas não
percebem é que uma coisa não invalida a outra, não é porque alguém foi bom com
você que essa mesma pessoa não possa ser má com outras. Para manter a Casa, o
nome, a reputação e os abusos, João de Deus não poderia ser um escroto o tempo
todo! Abusadores não são abusadores com todo mundo!
Desqualificar
os abusos que essas mulheres sofreram com base nas suas experiências pessoais
positivas seria o equivalente a falar que alguém não pode ser alérgico a
amendoim pelo simples fato que você coloca amendoim em tudo! Não é um argumento
lógico.
Como mulher
que já foi vítima de abuso, ver tanta gente dizendo que “não acredita” nos depoimentos
me entristece profundamente. Pode ter gente aí no meio mentindo? Pode! Eu não
sei se todos são reais, mas são muitos. Se um, que seja, for verdade, ele
precisa ser devidamente punido por isso. Não é porque ele fez bem para alguém
que o mal que ele faz para outra pessoa tem que ser desconsiderado. E eu nem vou
entrar no mérito que ele fez isso com pessoas sensibilizadas e que estavam
procurando por ele, provavelmente, como último recurso.

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