13 de maio de 2018

Almoços em família



            É dia das mães, e como na maioria das datas festivas a minha família se reuniu para um almoço. Minha família é razoavelmente bem grande, só em São Paulo, minha avó tem cinco filhos e cinco netos, contando comigo. Ah que alegria! Ou não...

            Minha família, por parte de mãe, tem um problema sério com a comida e com imagem corporal, é uma relação complicada. As pessoas apontam o dedo para a outra para dizer o quanto a sua forma/aparência está errada. Você nunca estará magro, jovem, bonito ou arrumado o suficiente para porra nenhuma.

            No meu caso, que sou gorda (e sempre fui desde criança), isso foi um problemão. Com uns doze para treze anos, eu comecei a apresentar sintomas de bulimia. Quando minha avó descobriu ela ficou preocupada, mas foi me ver emagrecer que a família começou a me elogiar em massa. Afinal, agora eu era tudo o que eles queriam para mim. Claro que havia uma preocupação com a minha saúde, mas ela sempre vinha junto com um elogio sobre a minha nova forma física, com raríssimas exceções.

            Com muito esforço eu melhorei, não estou curada, mas meus sintomas estão bem controlados. Tão bem controlados que eu engordei tudo o que emagreci na época. E tudo bem, porque mesmo acima do peso “ideal” meus exames estão em ordem... Contudo, eu sou alvo constante de conversas do tipo “estou preocupada(o) com a sua saúde”, “seu namorado sente tesão por você ainda?”, “mas seu rosto é tão lindo...”,  o que não acontecia com tanta frequência no auge da bulimia quando, além de tudo, a anorexia resolveu das as caras. Ainda bem, que pelo menos essa não durou...

            Voltando para as festas de família, existe a mania horrível de se falar (mal) dos outros, principalmente quando o assunto é relacionado à quantidade de gordura corporal. Porque afinal, você não vale muita coisa se não for magro, não importam seu emprego, suas conquistas, o quão feliz você está por poder viajar para onde bem entender... Como se magreza fosse sinônimo de saúde e de felicidade. Falam do assunto regime no meio do almoço, com um prato enorme de massa, uma torta de chocolate e um pudim de leite no cardápio, falam que pessoa X ou Y está enorme de gordo, que está feia por causa disse, que precisa de um puxão de orelha. Sem nem falar com ela, tentar entender o que está acontecendo ou mesmo o que ela quer pra si.

            Ser gordo(a) é um pecado mortal na minha família, você será taxado de incompetente e preguiçoso, e será visto como a pessoa menos saudável do universo. Mas, se você emagrecer, mesmo que com transtornos alimentares e de visão corporal como vigorexia, ortorexia, anorexia e bulimia, sua saúde não será questionada jamais, afinal, agora você é padrão. Aliás, é bem provável que te peçam o telefone do médico onde você conseguiu aqueles remédios tão maravilhosos, que fodem com seu fígado e coração, que já foram proibidos em tantos lugares, mas que te deixaram tão bonito e que facilitaram tanto a sua vida.

            Não importa o quanto a sua saúde mental está destruída, você vai ouvir o que quer e o que não quer sobre sua aparência, e se não for diretamente, vão falar de outros com as mesmas características que você, deixando bem claro que eles são monstros que a sociedade não precisa ver, conhecer e aceitar

- Mas eu não estava falando de você...

            Você sempre será o doente por estar gordo, porque saudável mesmo é fazer dietas hiper restritivas, é tomar remédios para emagrecer como se não houvesse amanhã, é se submeter a procedimentos estéticos sem fim porque ainda falta meio centímetro de pele sobrando na barriga.

            E depois sou eu quem não me aceito, e depois eu sou a recalcada, a que não merece que alguém sinta tesão por mim, a que tem problemas... E depois ainda falam que a minha depressão é porque eu estou gorda, já que, obviamente, se eu emagrecesse meus problemas sumiriam com a minha gordura.

É claro que eu tenho problemas, todos têm! É claro que se alguém viesse e me falasse que existe um remédio que me transformaria de uma 46 para uma 38, sem foder com a minha saúde física e mental, eu aceitaria! É mais fácil ser padrão do que não ser, mas não é justo fazer de tudo para dificultar ainda mais a vida daqueles que não são.  

- Aquele shorts estava novo, com etiqueta e tudo. Fui experimentar e ele ficou imenso! Mas imenso, imenso, imenso mesmo! Talvez sirva na Renata...



Vigorexia: https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/vigorexia/
Ortorexia: http://emais.estadao.com.br/blogs/luciana-kotaka/ortorexia-nervosa-e-suas-consequencias/
Bulimia: https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/bulimia-nervosa/
Anorexia: https://saude.abril.com.br/mente-saudavel/anorexia-o-que-e-sintomas-e-tratamento/


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