É dia
das mães, e como na maioria das datas festivas a minha família se reuniu para
um almoço. Minha família é razoavelmente bem grande, só em São Paulo, minha avó
tem cinco filhos e cinco netos, contando comigo. Ah que alegria! Ou não...
Minha
família, por parte de mãe, tem um problema sério com a comida e com imagem
corporal, é uma relação complicada. As pessoas apontam o dedo para a outra para
dizer o quanto a sua forma/aparência está errada. Você nunca estará magro,
jovem, bonito ou arrumado o suficiente para porra nenhuma.
No
meu caso, que sou gorda (e sempre fui desde criança), isso foi um problemão.
Com uns doze para treze anos, eu comecei a apresentar sintomas de bulimia.
Quando minha avó descobriu ela ficou preocupada, mas foi me ver emagrecer que a
família começou a me elogiar em massa. Afinal, agora eu era tudo o que eles
queriam para mim. Claro que havia uma preocupação com a minha saúde, mas ela
sempre vinha junto com um elogio sobre a minha nova forma física, com
raríssimas exceções.
Com
muito esforço eu melhorei, não estou curada, mas meus sintomas estão bem
controlados. Tão bem controlados que eu engordei tudo o que emagreci na época.
E tudo bem, porque mesmo acima do peso “ideal” meus exames estão em ordem... Contudo,
eu sou alvo constante de conversas do tipo “estou preocupada(o) com a sua saúde”,
“seu namorado sente tesão por você ainda?”, “mas seu rosto é tão lindo...”, o que não acontecia com tanta frequência no
auge da bulimia quando, além de tudo, a anorexia resolveu das as caras. Ainda
bem, que pelo menos essa não durou...
Voltando
para as festas de família, existe a mania horrível de se falar (mal) dos outros,
principalmente quando o assunto é relacionado à quantidade de gordura corporal.
Porque afinal, você não vale muita coisa se não for magro, não importam seu
emprego, suas conquistas, o quão feliz você está por poder viajar para onde bem
entender... Como se magreza fosse sinônimo de saúde e de felicidade. Falam do
assunto regime no meio do almoço, com um prato enorme de massa, uma torta de
chocolate e um pudim de leite no cardápio, falam que pessoa X ou Y está enorme
de gordo, que está feia por causa disse, que precisa de um puxão de orelha. Sem
nem falar com ela, tentar entender o que está acontecendo ou mesmo o que ela quer
pra si.
Ser
gordo(a) é um pecado mortal na minha família, você será taxado de incompetente
e preguiçoso, e será visto como a pessoa menos saudável do universo. Mas, se
você emagrecer, mesmo que com transtornos alimentares e de visão corporal como
vigorexia, ortorexia, anorexia e bulimia, sua saúde não será questionada
jamais, afinal, agora você é padrão. Aliás, é bem provável que te peçam o
telefone do médico onde você conseguiu aqueles remédios tão maravilhosos, que
fodem com seu fígado e coração, que já foram proibidos em tantos lugares, mas
que te deixaram tão bonito e que facilitaram tanto a sua vida.
Não
importa o quanto a sua saúde mental está destruída, você vai ouvir o que quer e
o que não quer sobre sua aparência, e se não for diretamente, vão falar de
outros com as mesmas características que você, deixando bem claro que eles são monstros
que a sociedade não precisa ver, conhecer e aceitar
- Mas eu não estava falando de você...
Você
sempre será o doente por estar gordo, porque saudável mesmo é fazer dietas
hiper restritivas, é tomar remédios para emagrecer como se não houvesse amanhã,
é se submeter a procedimentos estéticos sem fim porque ainda falta meio
centímetro de pele sobrando na barriga.
E
depois sou eu quem não me aceito, e depois eu sou a recalcada, a que não merece
que alguém sinta tesão por mim, a que tem problemas... E depois ainda falam que
a minha depressão é porque eu estou gorda, já que, obviamente, se eu
emagrecesse meus problemas sumiriam com a minha gordura.
É claro que eu tenho problemas, todos têm! É claro que
se alguém viesse e me falasse que existe um remédio que me transformaria de uma
46 para uma 38, sem foder com a minha saúde física e mental, eu aceitaria! É
mais fácil ser padrão do que não ser, mas não é justo fazer de tudo para
dificultar ainda mais a vida daqueles que não são.
- Aquele shorts estava novo, com etiqueta e tudo. Fui
experimentar e ele ficou imenso! Mas imenso, imenso, imenso mesmo! Talvez sirva
na Renata...
Vigorexia: https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/vigorexia/
Ortorexia: http://emais.estadao.com.br/blogs/luciana-kotaka/ortorexia-nervosa-e-suas-consequencias/
Bulimia: https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/bulimia-nervosa/
Anorexia: https://saude.abril.com.br/mente-saudavel/anorexia-o-que-e-sintomas-e-tratamento/
Vigorexia: https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/vigorexia/
Ortorexia: http://emais.estadao.com.br/blogs/luciana-kotaka/ortorexia-nervosa-e-suas-consequencias/
Bulimia: https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/bulimia-nervosa/
Anorexia: https://saude.abril.com.br/mente-saudavel/anorexia-o-que-e-sintomas-e-tratamento/

