Sou
filha única, pelo menos por parte de mãe. Ela trabalhou duro para me dar a melhor educação
disponível, mas para isso, sacrificou grande parte de seu tempo comigo. Mãe
solo, sem muito apoio do meu pai, dependia diretamente dos meus avós para ajudá-la
na minha criação. Sorte a minha!
Fui criada, em grande parte, pelos meus avós maternos. Morávamos na mesma casa, eu, minha avó e meu avô, três tios e minha tia. Para falar pouco, era uma zona! Zona organizada pela minha avó, que sempre fez o papel de policial malvado. E meu avô, é claro, o policial bonzinho.
Dessa época, lembro-me de coisas específicas, das quais a maior parte é relacionada a meu avô. Lembro de sentar na sala com ele depois do almoço, tomar um gole do chimarrão e “ajudar” nas palavras cruzadas, que ele fazia religiosamente todas as tardes. Lembro de voltar a pé do colégio com ele, enquanto ouvia histórias de quando ele teve tuberculose, ou sobre os dias no internato, quando ainda era garoto. “Nós tomávamos banho gelado em pleno inverno do Rio Grande do Sul! Lembro do pente preso no cabelo congelado de um amigo meu”; “Sabe, você precisa agradecer as coisas que tem, eu só fui ganhar meu primeiro sapato aos 11 anos!”.
Na verdade, eu ainda não sei em que acredito, na parte espiritual pelo menos. Não gosto da ideia de um julgamento posterior, onde você pode fazer o que bem entender aqui, muito menos da ideia de um Deus que é benevolente somente para os que acreditam nele, independentemente dos seus atos. Gosto da ideia de troca de energias, onde o que você coloca no mundo, uma hora ou outra, vai retornar. E isso foi uma das coisas que ele me ensinou com maestria. Lembro-me dele levando café com leite e um pão com manteiga para os lixeiros que trabalhavam na nossa rua.
- Mas vô, porque você sempre dá café com leite pra eles?
- Porque eu posso! E porque não me custa nada ser gentil!
Com tudo isso, meu avô me ensinou uma coisa mais importante ainda... Ele me ensinou a gostar de aprender! Ele me ensinou a gostar de ler e a ser curiosa, a querer saber como as coisas funcionavam e a gostar de assuntos diversos, que iam desde peixes do Pantanal até a Guerra do Contestado. ”Aprenda uma coisa logo cedo, ninguém pode tirar de você o conhecimento! Isso não se pode roubar!”
Sei que meu avô não era o homem perfeito. Ele foi um pai ausente para a maior parte dos meus tios, deixou muitas responsabilidades nas costas da minha avó, e provavelmente nas costas da sua primeira esposa, e, provavelmente, só foi um bom companheiro para ela quando se aposentou. E é claro que eu não posso esquecer, ele roubava, quase que compulsivamente, quando jogava paciência ou xadrez.



