23 de abril de 2018

Hoje deu saudades...




            Sou filha única, pelo menos por parte de mãe. Ela trabalhou duro para me dar a melhor educação disponível, mas para isso, sacrificou grande parte de seu tempo comigo. Mãe solo, sem muito apoio do meu pai, dependia diretamente dos meus avós para ajudá-la na minha criação. Sorte a minha!

            Fui criada, em grande parte, pelos meus avós maternos. Morávamos na mesma casa, eu, minha avó e meu avô, três tios e minha tia. Para falar pouco, era uma zona! Zona organizada pela minha avó, que sempre fez o papel de policial malvado. E meu avô, é claro, o policial bonzinho.

            Dessa época, lembro-me de coisas específicas, das quais a maior parte é relacionada a meu avô. Lembro de sentar na sala com ele depois do almoço, tomar um gole do chimarrão e “ajudar” nas palavras cruzadas, que ele fazia religiosamente todas as tardes. Lembro de voltar a pé do colégio com ele, enquanto ouvia histórias de quando ele teve tuberculose, ou sobre os dias no internato, quando ainda era garoto. “Nós tomávamos banho gelado em pleno inverno do Rio Grande do Sul! Lembro do pente preso no cabelo congelado de um amigo meu”; “Sabe, você precisa agradecer as coisas que tem, eu só fui ganhar meu primeiro sapato aos 11 anos!”.

            Na verdade, eu ainda não sei em que acredito, na parte espiritual pelo menos. Não gosto da ideia de um julgamento posterior, onde você pode fazer o que bem entender aqui, muito menos da ideia de um Deus que é benevolente somente para os que acreditam nele, independentemente dos seus atos. Gosto da ideia de troca de energias, onde o que você coloca no mundo, uma hora ou outra, vai retornar. E isso foi uma das coisas que ele me ensinou com maestria. Lembro-me dele levando café com leite e um pão com manteiga para os lixeiros que trabalhavam na nossa rua.

- Mas vô, porque você sempre dá café com leite pra eles?
- Porque eu posso! E porque não me custa nada ser gentil!
            
        Com tudo isso, meu avô me ensinou uma coisa mais importante ainda... Ele me ensinou a gostar de aprender! Ele me ensinou a gostar de ler e a ser curiosa, a querer saber como as coisas funcionavam e a gostar de assuntos diversos, que iam desde peixes do Pantanal até a Guerra do Contestado. ”Aprenda uma coisa logo cedo, ninguém pode tirar de você o conhecimento! Isso não se pode roubar!”

            Sei que meu avô não era o homem perfeito. Ele foi um pai ausente para a maior parte dos meus tios, deixou muitas responsabilidades nas costas da minha avó, e provavelmente nas costas da sua primeira esposa, e, provavelmente, só foi um bom companheiro para ela quando se aposentou. E é claro que eu não posso esquecer, ele roubava, quase que compulsivamente, quando jogava paciência ou xadrez.

19 de abril de 2018

Aquela voz...





Ter depressão é difícil... É uma doença chata, que quando você acha que foi embora ela resolve voltar. É uma sensação de não pertencimento, de não saber quem é exatamente, não saber do que gosta. É ter uma voz dentro da sua cabeça, sempre dizendo o quanto você não tem valor, o quanto é inadequada, o quanto todos são melhores, mais bonitos, mais felizes...
Hoje foi a formatura de algumas pessoas da minha turma da biologia e eu fui assistir. Deu saudades de não sei o que, talvez do que poderia ter sido, talvez da certeza de pertencer a um lugar. Deu uma tristeza ver meu ex-orientador falando lá na frente, agora no fim do mandato de diretor da bio. Ele fala bem, tem uma voz grave e calma, no fim da cerimônia só pediu que continuássemos com a qualidade que ele acha mais importante na espécie humana, a cooperação em prol da construção de algo bom. Desejei que aquele tivesse sido o discurso da minha formatura.
Fazer escolhas, como largar/trancar um curso, pode ser bem difícil às vezes. Eu sei que não estava feliz, mas ver o que poderia ter sido também me incomoda. Fico com a sensação de que eu estou parada enquanto todos passam por mim. Como se eu fosse a erva daninha em meio tantas flores maravilhosas, só esperando o jardineiro me arrancar da terra.
Ao mesmo tempo, junto com a sensação de vazio, um orgulho imenso das minhas amigas e colegas foi me tomando. Caramba, vocês conseguiram! Talvez eu também consiga achar o meu caminho. Talvez eu também possa ter tudo isso, e talvez, quem sabe, nessa hora, a voz da minha cabeça se cale por um momento.

15 de abril de 2018

O teatro vs. o filme




Ontem (14/04/18) fui assistir ao espetáculo “A pequena sereia”, lá no teatro Santander. Tenho que confessar que saí frustrada com a minha experiência...
Quando cheguei minha expectativa era de ver algo parecido com o que foi “O rei leão”, até aí tudo bem, porque quem criou a expectativa fui eu. O show começou e percebi que algumas coisas seriam adaptadas do filme, o que tudo bem também, na verdade adaptações do filme para o teatro são mais do que necessárias, obviamente. Contudo, na primeira cena, o linguado passa de amiguinho fofo da Ariel para alguém com uma "quedinha" por ela. Na minha cabeça, dado que eu não assistia ao filme há muito tempo, a culpa era minha por não ter percebido/lembrado desse fato do filme, mas aquilo me deixou com uma pulga atrás da orelha...
O show foi passando, assim como os clichês, e cada vez mais eu ficando incomodada com várias coisas. Nessas horas, o que você faria? Bom, eu cheguei em casa e assisti novamente ao filme, para ter certeza que aquilo não era eu sendo chata pra variar. E percebi, que a adaptação poderia sim ter sido melhor.
De novo, na minha cabeça, eu pensava que aquela imagem machista e cheia de clichês que a peça mostrou era fruto de um filme que tinha sido lançado no ano de 1989, mas não... Quando revi o filme percebi que todos os meus incômodos com a peça eram mostrados de forma inversa na peça. Exemplos: no filme, as irmãs da Ariel não são mesquinhas e ciumentas com a irmã mais nova, são só irmãs com conflitos de irmãs; o rei Tritão é um pai preocupado com todas as filhas, é rígido sim, mas não é, exatamente, abusivo, é só um cara tentando fazer o melhor que pode para criar sete meninas e governar um reino depois da morte de sua esposa; e a Úrsula é uma vilã fodástica e poderosíssima (exatamente como eu me lembrava)!
Eu sei que adaptações são necessárias quando um filme passa a ser uma peça de teatro. Só que, nesse caso específico, as adaptações e contextualizações fizeram do espetáculo um mar de clichês (bem desse tipo que eu acabei de fazer). Onde nem a Ariel se salvou... Vi muito pouco da garota curiosa e aventureira que só queria sair da asa de um pai hiper-protetor, mas vi muito uma adolescente ingênua e impulsiva que só queria pegar o “boy magia”, assim como não vi a vilã foderosa que a Úrsula é, para mim, ela passou uma imagem de mulher amarga e ciumenta em relação ao rei, que por sua vez, joga para escanteio as seis outras filhas assim como seu pai fez com a Úrsula.
Saí de lá triste, pensando nas menininhas da plateia que iam tomar como exemplo aquilo tudo, pensando em como uma das minhas princesas favoritas foi reduzida a uma personagem tão pequena em relação ao que poderia ter sido. Entenda, eu não cheguei esperando uma releitura moderna, cheia de mulheres super feministas, ou nada assim, é obvio que era isso que eu gostaria de ter visto, mas essa não foi a minha expectativa inicial, esperava ver os personagens, pelo menos, com as mesmas ideias e dimensões daqueles no filme. 
E para não dizerem que eu não vou fazer nenhum elogio: a representação do mar ficou maravilhosa!

13 de abril de 2018

A boa filha a casa torna.





Pensei em várias maneiras de como recomeçar o blog, mas de todas as minhas ideias achei melhor começar me apresentando e contando um pouquinho de quem eu sou.

Tenho 27 anos, moro em São Paulo e sou confusa (não confundir com indecisa, já que, normalmente, sei, pelo menos, o que não quero). Vivo cansada... Cansada mentalmente e fisicamente, acho que isso ainda é da minha depressão, que apareceu quando eu tinha 12 anos e nunca mais foi embora.

Tenho dislexia, o que significa que meu cérebro não funciona do mesmo jeito que o da maioria, e na verdade eu adoro esse fato sobre mim! A dislexia me fez precisar buscar caminhos alternativos para aprender. Eu não aprendo de forma linear, preciso relacionar coisas novas a coisas antigas, criando conexões que não são sempre lógicas... Isso me deu duas vantagens extraordinárias: minha capacidade de enxergar soluções que ninguém viu e a minha criatividade infinita!

Minha memória é muito boa, principalmente minha memória visual. Eu me lembro de cenas como se elas tivessem acabado de acontecer, lembro do rosto de muitas pessoas, mesmo que eu não tenha convivido diretamente com elas. Só tem um problema: eu sou péssima com nomes. O que já me causou algumas saias justas. Eu também lembro de fatos bizarros sobre as pessoas com quem eu convivo, e quando eu falo sobre esses fatos com as pessoas elas têm, normalmente, duas reações: elas se assustam, porque nem lembravam disso ou porque achavam que isso tinha ficado escondido para todo o sempre, ou elas ficam admiradas de alguém lembrar desse detalhe.

Por último, fiz quatro faculdades (economia, engenharia mecânica, engenharia elétrica e biologia), mas não me formei em nenhuma. Tem gente que me diz que isso foi uma enorme perda tempo, e passei muito da minha vida acreditando nisso, mas quando olho para tudo que eu aprendi e para todas as minhas vivências percebo que eu não seria nem metade do que sou sem que tudo isso tivesse acontecido.