13 de dezembro de 2018

Não é um argumento lógico






Eu já sofri abusos. Abuso psicológico, sexual, já tomei um tapa na cara porque bati a porta do carro forte demais. Nas vezes em que não duvidaram de mim deram razão a pessoa que me agrediu, porque, afinal, “eu tinha provocado ela”.
         

           Abusadores não são abusadores o tempo todo. São pessoas comuns que vez ou outra abusam de alguém e não são burros para fazer isso em plena luz do dia, na frente de uma plateia. Normalmente são agressivos e manipuladores, mas na maioria do tempo escondem a verdadeira face e mostram para o mundo um charme carregado de promessas.


         Vi muita gente duvidar das mulheres que, supostamente, o João de Deus abusou. Elas justificavam a descrença nas vítimas usando experiências pessoais na casa Dom Inácio de Loyola, dizendo que lá encontraram paz, cura e amor. O que elas não percebem é que uma coisa não invalida a outra, não é porque alguém foi bom com você que essa mesma pessoa não possa ser má com outras. Para manter a Casa, o nome, a reputação e os abusos, João de Deus não poderia ser um escroto o tempo todo! Abusadores não são abusadores com todo mundo!



          Desqualificar os abusos que essas mulheres sofreram com base nas suas experiências pessoais positivas seria o equivalente a falar que alguém não pode ser alérgico a amendoim pelo simples fato que você coloca amendoim em tudo! Não é um argumento lógico.



          Como mulher que já foi vítima de abuso, ver tanta gente dizendo que “não acredita” nos depoimentos me entristece profundamente. Pode ter gente aí no meio mentindo? Pode! Eu não sei se todos são reais, mas são muitos. Se um, que seja, for verdade, ele precisa ser devidamente punido por isso. Não é porque ele fez bem para alguém que o mal que ele faz para outra pessoa tem que ser desconsiderado. E eu nem vou entrar no mérito que ele fez isso com pessoas sensibilizadas e que estavam procurando por ele, provavelmente, como último recurso.


2 de dezembro de 2018

Então é (quase) Natal!




E você resolve não mais aceitar pessoas tóxicas na sua vida, o que, às vezes, inclui a própria família. É difícil dizer não. Eles vão te chantagear emocionalmente, usar seus pontos fracos (eles sabem todos eles) e dizer que o Natal é uma festa de família. Mas o que é uma família afinal?

Em tese, família é um grupo de pessoas, normalmente ligado por laços sanguíneos, que te apoia, guia e protege. Na minha prática, família é, na maior parte do tempo, um grupo de pessoas que resolve as coisas no grito, no preconceito e na falta de empatia. “Resolve” ...

Eu disse não para o Natal em família esse ano. Sem nenhum grande motivo, sem nenhuma mentira elaborada, disse apenas “eu não quero ir”. Na verdade, nem me dei ao trabalho de explicar (não que “não quero ir” não seja um motivo bom o suficiente). Para não dizer que não expliquei nada para ninguém disse meus motivos para a minha mãe.

Em resposta escutei coisas como:
-Mas sua avó já tem 80 anos!  E por isso vou passar na casa dela no dia de Natal pra dar um beijo e um presente! (eles sabem o seu ponto fraco!!!)
-Mas eu queria que você viesse! Até parece!
-Mas quem te fez mal o ano inteiro?! Sério?!
-Mas ninguém fala de política... Conta outra! Ou melhor, tem razão, eles só esbravejam mesmo.
-Mas porque você tem que ser intolerante? Eu?! Bom, não sou eu que faço piada de gordo na mesa, no meio do jantar, ou que falo que minha filha apanharia se namorasse com um negro, ou que bissexualidade é uma fase, ou...

          Natal, se algum dia foi um milagre, faz muito tempo. As pessoas têm a mania de achar que só precisam estar juntas, fazer caridade, amar ao próximo nessa data. Se o Natal foi um dia a comemoração do nascimento de Jesus, hoje é a celebração da hipocrisia.
            
           Eu queria mesmo que o Natal fosse sobre família, mas que família é essa que compara, envergonha e diminui os próprios membros? Que fala mal pelas costas, que não protege, que tem olhar seletivo? Não, eu cansei! Sair da depressão não está sendo fácil e eu não tenho motivos para ir direto para o lugar que mais me machuca. E provavelmente vai ser melhor para todos no fim das contas... Um Natal sem gritaria, sem brigas, sem discussões sobre política, empatia ou direito de existir...